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Eça de Queiroz
Revelando Eça de Queiroz: parta à descoberta das vilas, aldeias, cidades, montes e vales que inspiraram o autor de algumas das obras mais importantes da literatura portuguesa
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Panorâmica

Mestre da ironia, da crítica social e doREALISMO

Mergulhe na riqueza do universo de José Maria Eça de Queiroz, seguindo os passos de um dos maiores nomes da literatura portuguesa através dos lugares que mais marcaram a sua vida e obra. Conhecido pelas descrições pormenorizadas dos cenários onde ambientava as suas histórias, Eça de Queiroz é capaz de transportar-nos, como ninguém, dos socalcos do Douro aos restaurantes, teatros e ruas boémias de Lisboa, passando pela histórica Universidade de Coimbra e pela romântica Serra de Sintra.

Encontre em todos estes locais a essência de um escritor que, retratando a sociedade da sua época com ironia e acutilância, deixou-nos, nos seus romances, uma imagem tão moderna do país, que ainda hoje poderia ser considerada atual e pertinente.
Eça de Queiroz

Entre a cidade e o campo, nasceu a crónica de costumes de um país à beira da modernidade

Entre a cidade e o campo, nasceu a crónica de costumes de um país à beira da modernidade

Descubra os locais que fizeram parte da vida social e cultural de Eça de Queiroz e foram imortalizados em muitas das suas obras

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Crónica de As Farpas

Afonso Reis Cabral
Créditos fotografia: Vitorino Coragem
Lido porAfonso Reis Cabral
Curadoria deAfonso Reis CabralNasceu em Lisboa, em 1990. É escritor, editor e cronista português, trineto de Eça de Queiroz. Licenciado em Estudos Portugueses, estreou-se na literatura com o romance O Meu Irmão, que venceu o Prémio LeYa em 2014. Em 2019, venceu o Prémio José Saramago com Pão de Açúcar. É também conhecido pela sua ligação à literatura e cultura portuguesas, mantendo viva a herança queirosiana.Sobre a escolha deste texto

Sintético e cheio de humor, este pequeno texto ensina como a simplicidade pode ser a melhor aposta para quem quer escrever bem.

Texto
Sua majestade imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano.
Isto é inteiramente incontestável.
Todos estão acordes.
No que porém a opinião está radicalmente desacordada –
é acerca do lugar em que o imperador brasileiro visitou o historiador português.
O Diário de Notícias diz que o imperador foi à mansão do Sr. Herculano.
O Diário Popular afirma que o imperador foi ao retiro do Sr. Etc.
O Sr. Silva Túlio declara que o imperador foi ao tugúrio de Herculano
(ainda que linhas depois se contradiga, dizendo que o imperador esteve na tebaida do ilustre historiador que…)
Uma correspondência para o jornal do Porto afiança que o imperador foi ao aprisco do grande, etc.
Outra sustenta que o imperador foi ao abrigo desse que…
Outros jornais de Lisboa ensinam que sua majestade foi ao albergue daquele que…
Outro exclama que sua majestade foi à solidão do eminente vulto que…
Outro conta que o imperador foi ao exílio do venerando cidadão que…
Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura:
é que sua majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano!
Eça de Queiroz

Roteiro

Descubra os cenários vivos que inspiraram a escrita de Eça de Queiroz e percorra os lugares onde a crítica, a ironia e o olhar atento do romancista português ganharam forma intemporal.

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Eça de Queiroz

Póvoa de Varzim
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Nos passos deEça de Queiroz

Fachada da casa na Praça do Almada

José Maria Eça de Queiroz nasceu a 25 de novembro de 1845, no antigo número 1 da Praça do Almada, numa casa que confina com o atual Largo Eça de Queiroz, nessa altura designado Largo de São Sebastião. Ainda que a casa onde o autor de Os Maias ou A Cidade e as Serras nasceu não seja visitável, o edifício encontra-se assinalado com uma placa de bronze, da autoria do Mestre Teixeira Lopes, oferecida pelos portugueses do Brasil para celebrar o nascimento do escritor, e colocada em 1906, num evento que reuniu uma multidão na rua. Além disso, na zona Este da praça, foi construído, em 1952, um monumento ao escritor, onde este é retratado numa escultura de Leopoldo de Almeida.

Paço das Escolas

A 14 de outubro de 1861, Eça de Queiroz ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde conheceu figuras como Antero de Quental e Teófilo Braga, integrando a famosa “Geração de 70”. Licenciou-se em Direito em 1866 e iniciou uma breve carreira como advogado, antes de se dedicar ao jornalismo e à escrita. Descrições da Faculdade e das ruas da cidade viriam a figurar em diversos dos seus romances, como O Conde de Abranhos, Primo Basílio, A Ilustre Casa de Ramires, O Crime do Padre Amaro e A Cidade e as Serras. Fundada em 1290, pelo rei D. Dinis, e transferida definitivamente para Coimbra em 1537, a Universidade de Coimbra é a mais antiga de Portugal. Nela, destaca-se o Paço das Escolas, antigo alcácer islâmico que passou a Palácio Real no século XII e a Universidade em 1544, cuja decoração da porta de entrada, a Porta Férrea, é um exemplo da íntima relação entre a Universidade e o poder régio. Dentro do Paço encontram-se a Sala dos Grandes Atos, antiga Sala do Trono que hoje recebe grandes momentos da vida académica, a Capela de São Miguel e a Biblioteca Joanina, expoente máximo do Barroco português, construída durante o reinado de D. João V e considerada uma das mais ricas bibliotecas europeias, graças ao seu interior recoberto de estantes de madeira exótica, onde repousam cerca de 60 mil volumes dos séculos XVI ao XVIII, das mais variadas temáticas que ainda hoje podem ser consultados. Entre eles encontra-se o livro de registo de matrículas onde figura a de Eça de Queiroz.

Palácio Valdemouro - Residência dos pais de Eça

Inaugurado em setembro de 2023, no número 50 da Rua José Estêvão, em Aveiro, onde outrora se encontrava a residência do pai e da família de Eça de Queiroz, o MS Collection – Palacete Valdemouro é um hotel de cinco estrelas com quartos inspirados em personagens queirosianas, como Carlos da Maia, Padre Amaro ou Luísa de Brito, e decorados com peças da época em que o escritor produziu as suas obras, adquiridas em leilão. Na sala de leitura, há fotografias, cartas, canetas de tinta permanente e até o monóculo, pertencente ao espólio da Fundação Eça de Queiroz, com a qual o hotel estabeleceu uma parceria. No jardim, além de livros disponíveis para leitura, encontra-se a obra Essa é que é Eça, de Vhils. Aveiro tinha ainda um significado especial para Eça, já que costumava passar férias na praia da Costa Nova, que considerava “um dos sítios mais deliciosos do globo”, como atesta o conteúdo de uma carta, hoje reproduzido num painel de azulejos no muro do Palheiro de José Estêvão, uma das famosas casas de riscas coloridas típicas daquela praia, que pertencia ao pai de um grande amigo seu, o deputado e ministro Luís de Magalhães.

Biblioteca e Salão Nobre

Fundada em 1779, no antigo Convento da Nossa Senhora de Jesus, a Academia das Ciências de Lisboa é uma das mais antigas instituições científicas nacionais. Há 246 anos que se encontra em atividade, de forma ininterrupta, promovendo, divulgando e partilhando conhecimento nas áreas das ciências e das humanidades. Desde os livros que preenchem completamente as paredes do Salão Nobre até ao espaço do museu, passando pela biblioteca e o arquivo histórico, em todas as salas da instituição encontra-se saber acumulado e testemunho de homens e mulheres que dedicaram a vida ao conhecimento. Em 1883, Eça de Queiroz foi nomeado sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. No claustro da instituição é possível encontrar um painel de azulejo que retrata o busto do escritor, descrevendo-o como “notável escritor português” e “romancista de grande mérito”.

Fachada

Fundado em 1940 por iniciativa de António Ferro, o Círculo Eça de Queiroz é uma instituição dedicada à promoção da cultura, das artes e do pensamento crítico. Localizado no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, no coração do Chiado, e inspirado no legado de Eça de Queiroz, este exclusivo clube conta com um número fixo de 202 sócios, o qual remete para o palácio imaginário nos Campos Elísios, onde vivia a personagem Jacinto, de A Cidade e as Serras. No seu interior, ainda é possível encontrar a porta original, decorada com o número 202 moldado em ferro. Apresentando-se como um espaço de encontro intelectual e social, o Círculo Eça de Queiroz é palco de diversas conferências, exposições e concertos, que têm como objetivo fomentar o gosto pelas letras e pelas artes. Nestas iniciativas marcaram já presença grandes figuras da cultura nacional e internacional, como os Prémios Nobel da Literatura Maurice Maeterlinck e T.S. Eliot, ou ainda Graham Greene, Gabriel Marcel, Ortega y Gasset e Gregório Marañon.

Fachada Principal

Ainda hoje um dos principais palcos da cidade de Lisboa, o Teatro da Trindade inaugurou-se em novembro de 1867, por iniciativa do empresário teatral, dramaturgo e poeta Francisco Pereira Palha. Rapidamente foi adotado pela burguesia endinheirada da capital como o lugar ideal para os seus saraus e as suas soirées no Chiado. Com uma sala de espetáculos, um botequim com restaurante, uma sala de bilhar e o famoso Salão Trindade, que se podia transformar num grande salão de baile, o teatro foi considerado, aquando da sua abertura, o mais moderno e afrancesado da capital. É precisamente no Salão Trindade que, em 1888, Eça de Queiroz localiza uma das cenas do seu romance Os Maias - a da gala - talvez influenciado por atividades semelhantes ali organizadas nessa altura, como a apresentação do fonógrafo de Thomas Edison ou as conferências em que o explorador Serpa Pinto relatou a sua travessia de África.

Os Maias, bem como muitas outras obras de Eça, podem ser encontrados, traduzidos em variadíssimas línguas, algumas ruas mais abaixo, na livraria mais antiga do mundo em funcionamento, a Bertrand do Chiado, numa sala dedicada exclusivamente ao escritor.

Fachada principal

Criado por carta régia de D. Maria II, em 1846, o Grémio Literário teve entre os seus fundadores as duas principais figuras do Romantismo nacional - o historiador Alexandre Herculano (Sócio nº 1) e o poeta e dramaturgo Almeida Garrett - às quais se juntaram outros escritores e personalidades da vida política do liberalismo. Após mudar de sede diversas vezes, o Grémio instalou-se, em 1875, no palacete do visconde de Loures, na então Rua de S. Francisco, atual Rua Ivens, onde ainda se encontra hoje em dia. As suas salas, a biblioteca, o jardim e o famoso gabinete de leitura de jornais foram frequentados por gerações sucessivas de sócios, e a menção ao Grémio Literário encontra-se em muitas obras de autores célebres, entre eles Eça de Queiroz, 19º sócio da instituição. Aqui, o escritor passava longos períodos a ler, a consultar jornais e revistas francesas e, com certeza, a observar tantos que terão servido de inspiração para a construção dos seus personagens. Por exemplo, em Os Maias, o prédio que pertencia à família Cruges, no primeiro andar do qual vivia Maria Eduarda, encontrar-se-ia apenas “quatro portas adiante o Grémio”, na então Rua de São Francisco.

O próprio Eça morava perto desta rua, no quarto andar do nº 26 da Praça Dom Pedro IV, mais conhecida como Rossio, mesmo por cima do ainda hoje existente café Nicola. A casa, para a qual se mudou aos 21 anos e que viria a inspirar o consultório de Carlos Eduardo da Maia, era dos seus pais. Atualmente, na fachada do prédio, existe uma placa comemorativa que não deixa esquecer a passagem do escritor por esta morada

Duas Chaminés do Palácio - o ex libris da vila de Sintra

Em Os Maias, o mais famoso e aclamado livro de Eça de Queiroz, subintitulado Episódios da Vida Romântica, diversos momentos da ação passam-se em Sintra, vila romântica por excelência, onde, segundo o escritor, “Não há um cantinho que não seja um poema”. Na obra, o Palácio da Vila, um dos maiores ex-libris de Sintra e o exemplar mais significativo da arquitetura áulica medieval portuguesa que chegou aos nossos dias, é alvo de uma descrição que mostra a subtileza e ironia com que Eça criticava a sociedade do seu tempo. O escritor descreve-o como um 'maciço e silencioso palácio […] patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas belas janelas manuelinas […] e no alto as duas chaminés colossais, disformes, resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino…'. Já o Hotel Lawrence, que parece ter sido o primeiro hotel em Portugal, datando de 1780, no qual se hospedaram Lord Byron e o próprio Eça, é o local onde estaria hospedada Maria Eduarda, em Os Maias, mas surge também nas obras A Tragédia da Rua das Flores e Alves & Cª.

Mesa onde comeu quando chegou pela primeira vez em Tormes

Localizada na Casa de Tormes, em Santa Cruz do Douro, desde 1990 que a Fundação Eça de Queiroz se dedica a divulgar e promover nacional e internacionalmente a obra do escritor. Aquela que foi a inspiração para a casa senhorial de Jacinto, personagem principal de A Cidade e as Serras, é hoje um importante núcleo museológico referente à vida e obra do escritor. Uma visita à Casa de Tormes permitirá ver, por exemplo, a mesa onde Eça escrevia (de pé), os seus tinteiros, os seus famosos monóculos, fotografias com amigos e família, um quadro oferecido pelo rei D. Carlos, a mesa onde o escritor comeu pela primeira vez em Tormes, e ainda diversas primeiras edições, sendo uma delas a de Os Maias. Aos amantes da natureza, O Caminho de Jacinto, um percurso pedestre linear, com cerca de 3 km, que une a estação ferroviária de Aregos (Tormes) e a Fundação Eça de Queiroz, oferece vistas sobre 'os vales fofos de verdura, os bosques quase sacros, os pomares cheirosos em flor, a frescura das águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma doçura de paraíso, toda a majestade e toda a lindeza' da região.

Fachada

A 8 de janeiro de 2025, os restos mortais de Eça de Queiroz foram trasladados do jazigo onde se encontravam desde 1989, em Santa Cruz do Douro, para o Panteão Nacional. Para esta mudança foi necessário abrir a última sala livre, sobrando agora apenas mais três lugares. A Cerimónia de Concessão de Honras de Panteão a Eça contou com intervenções do seu trineto Afonso Reis Cabral, também ele escritor, que fez o elogio fúnebre, do Presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Situado na zona histórica de Santa Clara, o Panteão Nacional ocupa o edifício originalmente destinado à igreja de Santa Engrácia, o qual, apesar de ter sido construído no século XVI e totalmente reconstruído em finais do século XVII, permaneceu sem teto até aos anos 60 do século XX, altura em que o regime do Estado Novo decidiu terminá-lo e transformá-lo no Panteão, que se inaugurou em 1966, por ocasião do 40º aniversário do Estado Novo.

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CASA PRAÇA DO ALMADA (PÓVOA DE VARZIM)

José Maria Eça de Queiroz nasceu a 25 de novembro de 1845, no antigo número 1 da Praça do Almada, numa casa que confina com o atual Largo Eça de Queiroz, nessa altura designado Largo de São Sebastião. Ainda que a casa onde o autor de Os Maias ou A Cidade e as Serras nasceu não seja visitável, o edifício encontra-se assinalado com uma placa de bronze, da autoria do Mestre Teixeira Lopes, oferecida pelos portugueses do Brasil para celebrar o nascimento do escritor, e colocada em 1906, num evento que reuniu uma multidão na rua. Além disso, na zona Este da praça, foi construído, em 1952, um monumento ao escritor, onde este é retratado numa escultura de Leopoldo de Almeida.

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