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Sophia de Mello
Breyner Andresen
Revelando a essência de Sophia: descubra os lugares que falaram ao coração da poeta, acabando imortalizados na sua obra
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Panorâmica

Contemplar o mundo,verso a verso

Conheça a vida e obra de Sophia de Mello Breyner, aprendendo, com este roteiro, a ler poesia fora das páginas de um livro. Descubra versos nas camélias centenárias do jardim da Casa Andresen, no Porto, entregue-se ao vento que encrespa o mar, na praia da Granja, oiça “o silêncio de bronze” das cigarras, a caminho do Mercado Municipal de Lagos, ou sinta “leve o nosso corpo e a alma alada”, de cada vez que em Lisboa, ao virar de uma esquina, avistar o rio Tejo.

Conheça os cenários onde cresceu e viveu a poeta a quem “a poesia acontecia”, descobrindo em cada um deles memórias que acabaram imortalizadas nas centenas de poemas, contos, histórias infantis, crónicas, peças de teatro e ensaios que escreveu ao longo da vida.
Sophia de Mello

LUGARES LUMINOSOS, FONTE DE POEMAS, CONTOS E DE UMA VIDA DEVOTA À LIBERDADE

LUGARES LUMINOSOS, FONTE DE POEMAS, CONTOS E DE UMA VIDA DEVOTA À LIBERDADE

Uma viagem através das paisagens naturais, das casas, ruas e cidades que inspiraram a escrita de Sophia de Mello Breyner

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Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal

Maria Andresen de Sousa Tavares
Recitado porMaria Andresen de Sousa Tavares
Curadoria deMaria Andresen de Sousa TavaresFilha da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e de Francisco Sousa Tavares, é professora universitária de Literatura e autora de vários livros de poesia. Nasceu no Porto e vive em Lisboa. Durante cerca de dois anos organizou e catalogou o espólio literário da mãe para preparar a doação do acervo à Biblioteca Nacional de Lisboa, decisão tomada em conjunto pela família. O espólio inclui manuscritos, diários, fotografias e poemas inéditos, importantes para o estudo da vida e obra de Sophia. Maria tem sido uma forte promotora da divulgação e estudo da obra da mãe, especialmente no centenário da poetisa.
Poema
Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Roteiro

Entre o mar e a poesia, siga os passos de Sophia de Mello Breyner e mergulhe nos espaços que alimentaram a sua obra luminosa e o seu olhar único sobre a liberdade e a beleza.

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Sophia de Mello

Porto
Granja
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Lagos
Nos passos deSophia de Mello Breyner Andresen

Fachada Principal

A Quinta do Campo Alegre, palacete histórico do século XIX, onde se encontra atualmente a Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva e o Jardim Botânico do Porto, foi, até 1949, a casa dos avós de Sophia de Mello Breyner. Tendo passado parte significativa da sua infância e juventude neste lugar, a escritora acabou por fazer numerosas referências à casa e aos seus jardins nas suas obras. Destaca-se o conto Saga, que, inspirado na saga do seu bisavô, narra a viagem de barco do jovem Hans, do Norte da Europa até desembarcar numa cidade do Sul, onde se torna um importante homem de negócios e compra “uma quinta que do alto de uma pequena colina descia até ao cais de saída da Barra”, escreve Sophia. No mesmo conto, lê-se ainda que “tudo na casa era desmedidamente grande (...) até ao enorme átrio (...) no qual se podia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências”, passagem responsável, em 2011, por inspirar o biólogo Nuno Ferrand a transformar o palacete na Galeria da Biodiversidade, inaugurada em 2017, e a tornar “o sonho” de Sophia realidade, pendurando no átrio central da casa o enorme esqueleto de baleia da Faculdade de Ciências.

Entrada principal

Apesar de ser o segundo cemitério municipal do Porto, em monumentalidade, o Cemitério Agramonte não fica atrás do primeiro. Inaugurado em 1855, como resposta ao elevado número de mortos provocado por uma epidemia de cólera que assolou a cidade nesse mesmo ano, possui, além de seções privativas de diversas ordens religiosas, uma seção especificamente destinada aos não-católicos. É aí que se encontram sepultados numerosos protestantes, entre eles o bisavô e o avô de Sophia de Mello Breyner, Jan H. Andresen e João Henrique Andresen. Enquanto o jazigo de família do primeiro é adornado com esculturas de barcos, cabos navais e velas, elementos que refletem o sucesso e a fortuna construída com o comércio e a indústria, na campa do segundo, que morreu ainda jovem, deixando mulher e filhos, destaca-se uma escultura de António Alves Pinto, que representa a avó de Sophia de Mello Breyner a chorar, sobre o túmulo, a morte do marido.

Casa que inspirou o conto “A menina do Mar”

Lugar de férias, de descanso, mas também de trabalho, a casa da Granja, onde ainda hoje se encontra a secretária que Sophia usava em criança e onde, aos 10 anos, gravou a sua assinatura, bem como as suas praias, haveriam de ser imortalizadas em poemas e contos. É o caso de "Ondas", "Homens à beira-mar" ou "Casa Branca", onde escreveu: "Casa branca em frente ao mar enorme, / Com o teu jardim de areia e flores marinhas / E o teu silêncio intacto em que dorme / O milagre das coisas que eram minhas". Mas também de "A Menina do Mar", livro inspirado numa história que a mãe lhe contava: nos rochedos morava uma menina muito pequena... "Essa menina representava para mim a felicidade perfeita porque almoçava no mar, dormia no mar, vivia no mar...", disse Sophia, uma vez, a Maria Armanda Passos, numa entrevista.

Casa Travessa das Mónicas

Embora tenha nascido no Porto, foi na cidade de Lisboa que Sophia de Mello Breyner Andresen viveu grande parte da sua vida. Acabaria por ficar profundamente ligada ao bairro da Graça, para onde se mudou com o marido, Francisco Sousa Tavares, e os três filhos em 1951. Após ter-se instalado no 1.º andar do n.º 57 da Travessa das Mónicas, escreveu um postal à mãe, dizendo: “Estou na Graça! Cheguei hoje. Passei esta semana a abrir e a desembrulhar as coisas que me mandou. São tão bonitas. Ficam aqui tão bem. Tenho tudo o que preciso! A casa está linda!”. No fim da rua onde vivia a poeta, encontra-se o Jardim da Graça, também conhecido como Jardim Augusto Gil, no centro do qual, uma estátua com duas figuras aladas, Mãe e Filho, evoca a cultura grega e a mitologia da antiga Grécia pela qual Sophia era apaixonada. O jardim é ainda a porta de entrada para o Miradouro da Graça, desde 2009 Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, onde se encontra um monumento com o busto de Sophia, réplica de uma escultura em bronze criada nos anos 1950 por António Duarte.

Miradouro de Santa Luzia

O Tejo a espreitar atrás de uma curva, a luz do fim do dia, o silêncio de becos e escadas iluminados por “candeeiros tristes”, os “mastros baloiçantes dos navios”, o brilho dos anúncios, dos bares, dos cinemas, das águas do rio sob o sol matinal. Habituada a passear a pé, desde a casa da Travessa das Mónicas até ao Chiado, Sophia eternizou em dezenas de poemas as impressões que retinha, nestes passeios, da cidade que em frente a si desfilava.

Atualmente, mesmo “quando vamos / Com pressa ou distraídos pelas ruas”, há lugares deste percurso que valem a nossa atenção. É o caso do famoso Miradouro de Santa Luzia, da Sé de Lisboa ou da Igreja de Santo António, mais abaixo, na mesma rua. Continuando a descer, ultrapassado o Rossio, surge a famosa Rua Augusta, que se abre para o Terreiro do Paço através de um arco triunfal, no topo do qual existe um miradouro, alcançável através de um elevador e dois lances íngremes de escadas. Já na Livraria Bertrand do Chiado, a livraria mais antiga do mundo em funcionamento, encontra-se uma sala dedicada exclusivamente a Sophia.

Fachada

Sophia de Mello Breyner encontrava-se entre os mais de 100 fiéis que, na passagem do ano de 1968, após a missa presidida pelo Cardeal-Patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira, permaneceram toda a noite em vigília nesta igreja, com o objetivo de denunciar o “compromisso político da Igreja frente ao Estado”, manifestando-se pública e coletivamente contra a Guerra Colonial, travada na Guiné, Angola e Moçambique. Para a ocasião, a poeta escreveu propositadamente a Cantata da Paz («Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar»), musicada por Francisco Fernandes e cantada por Francisco Fanhais. Mandada construir em 1241 por D. Sancho II, a Igreja de São Domingos foi vítima, não de um, mas de dois grandes terramotos, o de 1536 e o de 1755, no entanto, as suas paredes totalmente queimadas, que atraem hoje numerosos visitantes, são as “cicatrizes” de um incêndio que, a 13 de agosto de 1959, fez desabar o teto e destruiu tesouros de valor incalculável, entre os quais um óleo atribuído a Josefa de Óbidos.

Fachada

Construído no século XVI pelos monges negros beneditinos, que tinham esta designação devido à cor dos hábitos, o Mosteiro de São Bento, hoje Palácio de São Bento e morada da Assembleia da República, já foi prisão, hospedaria, sepultura de estranhos, refúgio, depósito de destroços de regimentos militares, academia militar e patriarcal, instalação provisória do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e Palácio das Cortes. Até que, no século XX, com o projeto de Ventura Terra, o edifício sofreu a sua mais profunda remodelação, ganhando a imponência considerada adequada ao órgão de soberania que o ocupava: o Parlamento. É precisamente neste Parlamento que se sentará, entre 1975 e 1976, Sophia de Mello Breyner, eleita Deputada pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte, na sequência das eleições realizadas a 25 de abril de 1975, um ano depois da Revolução. No Hemiciclo, como nos seus poemas, usou palavras cuidadas para falar do que considerava urgente. É o caso do debate sobre a liberdade de criação cultural, durante o qual defendeu que “a cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar - para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça”.

Muralhas - Porta de São Gonçalo

Sophia de Mello Breyner descobriu Lagos nos anos 60, onde passou a ter uma casa de férias. Maravilhada com a sua luz "matinal e aberta", a Praça Infante Dom Henrique, "tão concisa e grega", a "brancura da cal tão veemente e direta", as praias, a brisa, as grutas e os peixes azuis, escreveu dezenas de poemas dedicados à cidade. Em 2019, por ocasião do centenário do seu nascimento, numa iniciativa da Câmara de Lagos e da associação cultural Laboratório de Atividades Criativas (LAC), o artista de arte urbana João Samina pintou dois murais de grandes dimensões com o rosto da poeta, um na Escola Básica Sophia de Mello Breyner Andresen e outro na fachada de um edifício perto do mercado municipal de Santo Amaro.

"O Caminho da Manhã", além de ser um dos mais famosos poemas de Sophia sobre a cidade de Lagos, é uma descrição poética do percurso que costumava fazer desde casa até ao Mercado Municipal, escrita após ter tido a necessidade de explicá-lo à empregada. Para recriar o percurso, basta seguir "pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra" até chegar à Porta de São Gonçalo e "às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas", seguindo depois "pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas" até encontrar, "em frente do mar", a Praça Infante Dom Henrique, "quadrada e clara que tem no centro uma estátua". De seguida, avançar "entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela", e, por fim, entrar no Mercado Municipal onde, atualmente, é possível observar um mural de azulejo onde se lê o texto completo de "O Caminho da Manhã”.

Farol da Ponta da Piedade

Na zona em torno da Ponta da Piedade, situada a 3 km de Lagos, existe uma grande variedade de grutas e formações rochosas, que Sophia de Mello Breyner visitava regularmente, e às quais dedicou textos como As Grutas ou Gruta do Leão. Em entrevista a José Carlos Vasconcelos, falou “das grutas da Praia de D. Ana onde se ia de barquinho a remos, sem barulho, sem cheiro a gasolina, chegava-se lá e estavam desertas, («o esplendor pairava solene sobre o mar»), das cidades calmas e maravilhosas”. Como homenagem ao amor que Sophia tinha pelo local, uma das grutas recebeu o nome de Gruta de Sophia. Hoje, a paisagem que tanto fascinou a poeta pode ser visitada não só de barco, mas também a pé, através de vários trilhos que partem da Praia do Camilo e seguem pelas falésias até ao farol da Ponta da Piedade — passando por uma zona de piscinas naturais — ou através dos Passadiços da Ponta da Piedade, que ligam o farol à Praia do Canavial num percurso de cerca de 2,5 km.

Fachada

Em 2014, dez anos após a sua morte, Sophia de Mello Breyner foi transladada para o Panteão Nacional como forma de homenagear 'a escritora universal, a mulher digna, a cidadã corajosa, a portuguesa insigne' e de evocar o seu exemplo de 'fidelidade aos valores da liberdade e da justiça', lê-se no projeto de resolução da Assembleia da República. Tornou-se assim a segunda mulher, após Amália Rodrigues, a receber tal homenagem, juntando-se a outras grandes figuras da cultura portuguesa como os escritores Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro ou João de Deus. Situado na zona histórica de Santa Clara, o Panteão Nacional ocupa o edifício originalmente destinado à igreja de Santa Engrácia, o qual, apesar de ter sido construído no século XVI e totalmente reconstruído em finais do século XVII, permaneceu sem teto até aos anos 60 do século XX, altura em que o regime do Estado Novo decidiu terminá-lo e transformá-lo no Panteão, que se inaugurou em 1966, por ocasião do 40º aniversário do Estado Novo.

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CASA ANDRESEN (PORTO)

A Quinta do Campo Alegre, palacete histórico do século XIX, onde se encontra atualmente a Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva e o Jardim Botânico do Porto, foi, até 1949, a casa dos avós de Sophia de Mello Breyner. Tendo passado parte significativa da sua infância e juventude neste lugar, a escritora acabou por fazer numerosas referências à casa e aos seus jardins nas suas obras. Destaca-se o conto Saga, que, inspirado na saga do seu bisavô, narra a viagem de barco do jovem Hans, do Norte da Europa até desembarcar numa cidade do Sul, onde se torna um importante homem de negócios e compra “uma quinta que do alto de uma pequena colina descia até ao cais de saída da Barra”, escreve Sophia. No mesmo conto, lê-se ainda que “tudo na casa era desmedidamente grande (...) até ao enorme átrio (...) no qual se podia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências”, passagem responsável, em 2011, por inspirar o biólogo Nuno Ferrand a transformar o palacete na Galeria da Biodiversidade, inaugurada em 2017, e a tornar “o sonho” de Sophia realidade, pendurando no átrio central da casa o enorme esqueleto de baleia da Faculdade de Ciências.

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